terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Do Tempo I: paisagismo

Caminho por ruas sutis.
Cinzaclaro distante.
Absorto em você.
Posso mergulhar em tua cor
tanto quanto é minha cor.
Logo, me limitas.
Meu é teu círculo.
Meus são teus olhos.
Logo, me amplias.
Dá-me tua língua
e dou-te um sentido.
Lapido. Teço. Moldo tua natureza em mim.
Mostra-me quilíceras
e dou-te mortalidade.

Comigo serás
até que eu não te seja mais.



A natureza íntima da subjetividade é o Tempo. Dele ramificam-se os outros aspectos. A sucessão de imagens conectadas umas às outras no Tempo nos dá a idéia de espaço. A sucessão de fatos no espaço nos leva à causalidade. Mas o círculo do Tempo é limitado. Eventualmente nos veremos fora dele.

A superfície do Tempo é rugosa, passível de topografias.

...uma planície matinal, uma praia vespertina, uma falésia noturna...

10 comentários:

Perizin InuYasha disse...

A sucessão das vidas (o que é chamado de Tempo) realmente é circular e isso já era dito há muito tempo no Oriente. Será que nossa subjetividade mora no Tempo? Como poderiam nossos anseios, vivências e sentimentos estarem guiados por algo que é construído social e culturalmente? O Tempo existe?

Já volto para fazer mais um comentário.

Perizin InuYasha disse...

Uma tribo africana, da qual não me lembro o nome, tem uma só palavra que significa tempo/espaço. Existe muito menos multiplicidades que imaginamos e muito mais unidade do que julga a nossa vã filosofia. O que chamamos de tempo é cíclico e eterno; não é limitado. Não tenho pressa! O ciclo do tempo é infinito.

rafael fittipaldi disse...

"Será que nossa subjetividade mora no Tempo?" --penso que o Tempo mora na nossa Subjetividade...

"O ciclo do tempo é infinito." --quando o ciclo se fechar, o Tempo não terá sido...


Muito obrigado pelo convite para publicar aqui! Abraços!

Theo disse...

acredito estar vendo duas perspectivas de surrealidade, uma sem tempo, onde só tempo
tempo
templo
tem planos
e temporais

o que nos adivinha? oq seras? :o tento que intenta o tempo? e reintempo.....

desculp

mas voltando, se se pode observar de dentro, o que mora nesse tempo dentro do temp? e quando o tempo se esgotar? transbordara? ou caira no semtempo,,,,, ou nos 100stempos..... ?????

Perizin InuYasha disse...

""O ciclo do tempo é infinito." --quando o ciclo se fechar, o Tempo não terá sido..."

O ciclo não se fechará. O ciclo da humanidade pode até se fechar, mas o ciclo da existência é eterno. Se é ciclo, ele sempre se renovará.

Virginiacomsaudade disse...

Não me aguentei, resolvi entrar para a festa:

Meu querido Rafa, tenho questões, quero entender o que vc pensa sobre -

Apesar da boa idéia do tempo que te expande ao mesmo tempo que te limita, me perguntei como o ciclo do tempo é limitado - a grande questão entre os comentadores, aparentemente... Como? Em que sentido? Você pensa no nosso famoso SUBLIME romântico-kantischopenhaueriano? Se SIIIIIM, como, se "seus [do tempo] são os meus olhos?" Esta idéia é boa para pensar o espaço formado pelo tempo, mas não cabe com a arte, ao menos não com toda a arte. Se eu entendi bem, algo entre fenomenologia e romantismo alemão não combinam... explique-me, por favor, amormeuzão!

Beijos, sempre... e abraços para todos!

rafael fittipaldi disse...

Bem-vinda à festa, amor =)

Que ótima intervenção! E que difícil de responder!

É toda a objetividade produzida pela atividade consciente? Ou a coisa-em-si pode lhe ser uma causa? De qualquer forma, a subjetividade é em si? Ou a subjetividade se relaciona com a objetividade analogamente à relação entre consciente e inconsciente? Esse duplo par subjetivo-objetivo/consciente-incosnciente resolve-se na estrutura. Nessa estrutura me parece estar o tempo, para tentar responder à pergunta. Se ele de fato também está fora dela, não sei, e não acredito que seja possível *saber* isso. Mas, idependentemente disso, é a consciência que dá realidade subjetiva ao tempo subjetivo e realidade objetiva ao tempo objetivo; ("ao menos" ou "ou melhor") é isso que me veio à mente quando escrevi o poema ;)

É importante diferenciar círculo de ciclo. O ciclo faz parte do tempo objetivo, e está relacionado à alternância entre períodos de luz e escuridão. O círculo é tudo o que pode ser tocado pelo tempo, subjetiva ou objetivamente. Em ambos, o limite de que falei é a morte do sujeito.

Talvez não seja o sublime o ponto aqui, mas essa nova interpretação da subjetividade que vem se firmando nos últimos tempos. Tenho a impressão que a diferença entre romantismo e fenomenologia está no papel da coisa-em-si e sua relação com a subjetividade. Mais que isso sei dizer não...

Uma curiosidade, que tem um pouco a ver com esta discussão: L. C. Borges publicou na Scientific American (edição especial n° 14, p.41) um esquema polidimensional do tempo que é mais ou menos assim:

TEMPO
..*subjetivo
....-psicológico

..*objetivo
....-linguístico
......|tempo verbal
....-cósmico ou físico
......|cronológico
........~histórico
..........*político
........~cíclico
..........*litúrgico
............-ritual
............-mítico

Segundo o autor, "(...) em lugar de pensá-lo [o tempo] como uma forma (fluxo ou curso), devemos concebê-lo como uma complexidade de relações, composta de um entrelaçamento de diferentes linhas temporais, ora superpostas, ora justapostas". O que acham?

Tomara que eu tenho conseguido responder à pergunta!

Eu não entendi quando você falou que certas formas de arte não cabem dentro daquele pensamento, amor...

Beijos, meu bem!

Abraços, rapaziada!

leo disse...

diferenciar círculo de ciclo. O ciclo faz parte do tempo objetivo, e está relacionado à alternância entre períodos de luz e escuridão. O círculo é tudo o que pode ser tocado pelo tempo, subjetiva ou objetivamente. Em ambos, o limite de que falei é a morte do sujeito.


Impressiona-me.
Todo dia levanto-me antes que ele
e, certeiro, ele vem.
Impressiona-me o sol, os cabelos brancos e a morte de uma árvore.

Seguindo trilhas postas: o limite do tempo é a morte do sujeito. Mas não há sujeito além desse antropocentrismo. O único sujeito possível e impossível para tanto é Deus. Nem o tempo, nem a existência acabam. Do leo ao cinzaclaro sobre a terra, a existência é diferença constante.

Mas não podemos negar esses ciclos, parecem muito evidentes. O tempo, como o manejamos socialmente, é a arbitração de medidas a esses ciclos. O enigma que a mim se apresenta é: por que diabos essa artimanha existencial dos cilcos?? Por que tanto as células quanto o sol "envelhecem" e morrem??

Talvez seja eu demasiado materialista. Desconfio da utilização de subjetivo/objetivo. Já confundo suas conotações e denotações.

Entendi pouco o que quis dizer sobre o circulo, rafa. Acho tambem que as imagens estao bem alheias ao tempo e, a mim, minhas imagens do passado, d~ao menos a ideia de series temporais, e mais de existencias quase desconexas.

leo disse...

gostei dessa citacao borges.

talvez essas diferentes linhas vao criando a matriz temporal que se desenrola com as coisas.

as categorias classificatorias nao parecem-me importantes numa primeira olhada. talvez tenham outra dimensao no artido que seja difici captar assim por cima.

mas vou cultivar um tanto essa coisa das linhas.

rafael fittipaldi disse...

Um belo paradoxo, leo: O Tempo não pode ser encarado como um vazio que preenche-se, mas está inevitavelmente vinculado a experiências, sendo-lhes indissociável e - até mesmo - sua outra face. Por outro lado, o Tempo fora do sujeito só é possível através do artifício metafísico de um deus intervencionista, artifício ao qual renuncio por alguns motivos. O mais importante deles é que um tal deus, para ser consistente, deveria permanecer idêntico a si em todos os níveis ontológicos, em todas as esferas de conteúdos territorializados ou não - o que, para mim, engessa a trama superfluida dos Universos incorpóreos, tirando-lhes alguns matizes bonitos.